Novo Editorial – Jornal Da Licença - Texto de Carlos Mathias O que é a Matemática? O que é o Matemático? A segunda pergunta é mais recente do que a primeira. De toda forma, ambas não decorrem apenas do nosso desejo de compreendermos o significado de cada palavra, mas também de estabelecermos relações entre as representações "matemática-ciência exata e objetiva" e "o ser humano que a pratica". Este breve texto é mais um devaneio pessoal do que um par de respostas. Em um sentido estrito, a matemática não existe. Apresso-me em dizer que não existe como algo concreto, que conseguimos tocar, como uma cadeira, por exemplo. Nem tampouco existe objetivamente, enquanto um a priori do Universo, conforme proposto pelas escolas platônicas da matemática. Como conceber a existência de um mundo imutável de verdade, do qual a matemática é inquilina? O reconhecimento de um mundo constituído apenas por elementos substantivos que não se conflitam e não se contradizem em momento algum é profundamente redutor e, principalmente, humanamente excludente. Excludente, sim, pois em tal mundo não haveria tempo, nem história. Os adjetivos são fundamentais, sobretudo aqueles desejáveis, construídos culturalmente e que são variáveis no tempo. Estes, por sua vez, são alcançáveis por meio das experiências, representadas pelos verbos: as ações humanas que resumem o viver da vida. São nesses termos que surge o homem matemático, como reconhecedor do mundo em que vivemos. O matemático não constrói matemática apenas do jeito que um técnico constrói cadeiras, por meio de processos e parâmetros únicos e bem definidos, que a ele permitem obter réplicas perfeitas, onde ele quiser, quando ele quiser. Essa é uma pequena fração do trabalho de alguns matemáticos. No entanto, deveria fazer parte do trabalho de todos os matemáticos o reconhecimento da cadeira como um objeto cultural cuja existência foi construída a partir da vontade e da necessidade de sentarmos, que decorrem do formato do corpo das pessoas e das tarefas a que elas o submetem ao longo do dia. Um polinômio, um triângulo, são exemplos de cadeiras. A matemática não é um mero jogo manipulativo que se dá sobre uma estrutura formal. Algumas matemáticas foram assim construídas, outras, igualmente legítimas, não. Em todo caso, o matemático tem sua percepção acerca do que seja um problema e o consequente desejo de significar qualquer ação capaz de resolvê-lo. Falar "matemática" é por vezes uma convenção linguística, forçada pelo prazer da "substantivação", que dá nome às nossas próprias práticas e que infantilmente torna objetivo aquilo que só existe no mundo a partir do momento em que é posto por nós e significado por muitos. É por isso que o matemático deve prezar pelo compartilhamento de significados, de modo amplo e humilde. Seja daquilo que ele faz, ou de si próprio. É a nossa inteligência sensível que permite-nos conhecer a realidade, é graças a ela que podemos ajustar o nosso comportamento ao meio, cumprindo a função adaptadora do viver ao sobreviver. Mas, ao contrário da inteligência animal, a inteligência humana cumpre tal função de modo extravagante: adapta-se ao meio, adaptando o meio às suas necessidades. A inteligência do matemático tem ainda outra atribuição fundamental: inventar possibilidades. A modelagem matemática imbui-se dela, pois não busca conhecer o que as coisas são, mas também o que elas podem ser, suficientemente. Não se contenta com o foi, o é e o será, mas coloca o poderia ser e o seria se, os modos verbais da irrealidade. A realidade do matemático é assim expandida pelas práticas e modelos matemáticos irreais que sua inteligência integra a seus planos. Não apenas planos dos matemáticos da universidade, mas também do pedreiro-matemático, do agricultor rural-matemático, da costureira-matemática e daquele que é professor pela matemática. O bom matemático, penso, é aquele cujas ações afetam positivamente e eticamente o meio ao qual ele está inserido, mas jamais qualquer falsa impressão que ele causa àqueles que o ouvem, no momento em que lhe julgam ser um "médium" da ciência a serviço da construção da "Verdade". O homem inventou a música de câmara e a câmara de gás. A nosso crédito figuram a beleza e o horror. Somos forçados a escolher e nada nos garante que o façamos com acerto. Torna-se necessário, portanto, discernirmos as possibilidades das nossas contribuições. A ética é tão apenas o salva-vidas a que temos de nos agarrar, depois de termos naufragado nas possibilidades que a nossa própria inteligência e sensibilidade engendraram, objetivamente. A matemática é tão apenas um meio para os homens alcançarem fins humanamente desejáveis. O matemático é o homem que deseja ser feito, enquanto fim, por tal meio.
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